Visão Geral
Tem-se escrito muito sobre dieta e câncer de todos os tipos, e pesquisas
recentes sugerem que uma alteração de nossas dietas pode prevenir cerca de 35% dos
casos da doença. Todos os anos o câncer é diagnosticado em 10,9 milhões de
pessoas no mundo todo, e há 6,7 milhões de óbitos associados com a doença, cerca de
um milhão dos quais na UE (1). Diante dessas cifras, é compreensível esperar que
todas as possíveis correlações entre o que fazemos, comemos e bebemos e o risco
de câncer tenham sido estudadas exaustivamente. Por ser uma bebida popular, o
café é incluído nesses estudos.
Em 1991 a Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (IARC), que é parte da
Organização Mundial da Saúde, classificou o café como “possivelmente
carcinogênico no câncer da bexiga”. Esta classificação foi motivada pela insuficiência dos
dados disponíveis na altura, que não possibilitava maior especificidade (2). O
relatório também afirmava, contudo, que tomar café pode inclusive contribuir
para proteger contra certas formas de câncer. Isso levou à realização de muitos
outros estudos.
Os estudos realizados de 1991 para cá produziram dados que podem ser de
interesse para quem toma café sobre quatro principais tipos de câncer: intestinal
(colo-retal), pancreático, da bexiga e hepático.
Câncer intestinal
A estimativa mais recente é de que cerca de 2 entre 3 casos de câncer
intestinal podem ser evitados por mudanças de dieta e estilo de vida, mas não há uma
dieta que garanta a prevenção desse tipo da doença (1).
Diversos estudos demonstraram que o consumo de café tem a ver com menor risco
de câncer colo-retal. Um estudo feito no Canadá revelou que o risco caía quando
se aumentava o consumo para cinco xícaras diárias (especialmente nos homens)
(3). Outro conjunto de estudos mostrou que o risco de contrair câncer colo-retal
se reduzia 28% entre pessoas que tomavam quatro ou mais xícaras de café por
dia, em comparação com pessoas que tomavam menos de uma xícara (4).
A redução do risco de câncer colo-retal entre consumidores moderados e médios
de café foi consistentemente observada em mais de uma dúzia de estudos
realizados, em circunstâncias variadas, na Ásia, na Europa setentrional e meridional e
na América do Norte. Diversos estudos não levaram a essa conclusão, mas neles
não se deu o devido peso a outros fatores, como tabagismo e consumo de álcool,
que reconhecidamente afetam o risco de câncer a que se está sujeito.
Como isso ocorre?
Acredita-se que, além de acelerar a passagem dos alimentos pelo trato
intestinal, reduzindo o tempo de exposição do cólon a substâncias que induzem o câncer
(5), o café ajuda a reduzir a produção de ácidos biliares, que, como se sabe,
desempenham um papel ativo na promoção do câncer do cólon (6).
O café também contém vários compostos com propriedades fortemente
antioxidantes, como o ácido caféico e o ácido clorogênico (7,8),
e outros, como o cafestol e o caveol, que têm propriedades anticarcinogênicas
(9). Julga-se que o papel dos antioxidantes na proteção de nossas células e
tecidos contra os danos da oxidação é significativo.
Câncer pancreático
A maioria dos especialistas não julga que haja uma correlação entre o café e o
câncer pancreático. Desde que o relatório da IARC foi publicado em 1991, os
resultados de sete importantes estudos vieram a lume. Nenhuma conexão foi revelada
num estudo de 17.633 homens nos EUA (10) nem num estudo norueguês (11). Três
outros estudos norte-americanos – o estudo de 14.000 residentes aposentados (12),
o acompanhamento descrito no Health Professionals Follow-up Study (13) e os
casos do Nurses' Health Study (13) – confirmaram a inexistência de uma correlação
entre tomar café e maior risco de câncer pancreático.
Há alguns anos, certos estudos indicaram a possibilidade de uma correlação,
mas, quando num deles se levou em conta o tabagismo, considerou-se que a
associação com o café não era estatisticamente significante (14).
Um outro estudo chegou a indicar uma relação inversa, mostrando uma redução
do risco de contrair câncer pancreático entre as pessoas que tomam café (15).
Câncer da bexiga
Depois da publicação do relatório da IARC em 1991, foram feitos vários estudos
sobre o café e o câncer da bexiga, em que se tentou determinar se a pequena
correlação com o café de que se tinha notícia era a causa, ou se o tabagismo,
reconhecido como fator de risco do câncer da bexiga, fora neles classificado de
forma incorreta.
Uma análise de 10 estudos europeus limitados a 564 não-fumantes não revelou
excesso de risco entre os que tomavam café (16). Num estudo norueguês, não se
detectou nenhuma associação significativa entre um consumo elevado de café
(superior ou igual a 7 xícaras diárias) e o risco de contrair câncer da bexiga tanto
entre os homens quanto entre as mulheres que participaram do estudo (11).
Mais recentemente um estudo nos Países Baixos identificou 569 casos de câncer
da bexiga num grupo de 3.123 homens e mulheres (17). Após levar em conta outras
possíveis causas, nenhuma correlação entre o consumo de café e o risco de câncer
da bexiga foi observada entre os homens, mas entre as mulheres observou-se uma
relação inversa significativa, ou seja, a presença de menor risco entre as que
tomavam café.
Assim, o grande volume dos dados procedentes de diversos estudos populacionais
sobre o café e o risco de câncer da bexiga, após terem sido levadas em conta
outras possíveis causas, exclui claramente uma correlação acentuada entre o
consumo de café e o risco de contrair a doença. Quando ocasionalmente se nota uma
associação moderada, é possível que ela resulte do tabagismo e outros fatores.
Câncer hepático
Estudos realizados na América do Norte e na Europa (18) demonstraram que há uma
relação inversa entre o consumo de café e o risco de cirrose, e, como a cirrose
pode levar ao câncer hepático, essa constatação é significativa.
Vários estudos sobre um efeito potencialmente favorável do café no câncer
hepático também foram publicados nas duas últimas décadas, e a relação entre
tomar café e o risco de câncer primário do fígado foi examinada em pelo menos seis
estudos.
Os resultados de um estudo japonês envolvendo 334 pessoas que tomavam café
diariamente mostraram que elas corriam menor risco de contrair câncer hepático do
que as pessoas que quase nunca tomavam café, e que o risco diminuía na relação
inversa da quantidade de café ingerido. Em comparação com as pessoas que não
tomavam café, o risco relativo das que tomavam 1-2 xícaras diárias caía 50%,
enquanto que entre as pessoas que tomavam mais de 5 xícaras diárias, ele caía 75%
(19).
Num estudo grego recente (20) envolvendo 333 pessoas, os resultados revelaram
que as que tomavam cerca de 3 xícaras de café por dia (20 xícaras por semana)
corriam 30% menos risco que as que não tomavam café.
Em outro estudo que se fez em hospitais da Itália, envolvendo 250 casos e 500
controles, conclusões semelhantes foram alcançadas, ou seja, em comparação com
pessoas que não tomavam café, as que tomavam 1 - 2 xícaras por dia corriam 20%
menos risco de contrair câncer hepático, as que tomavam 3 - 4 xícaras corriam
60% menos risco, e as que tomavam 5 xícaras ou mais corriam 70% menos risco
(21).
Finalmente, as constatações desses estudos receberam uma corroboração adicional
quando se procedeu a uma análise global envolvendo mais de 60.000 pessoas (22).
As constatações confirmaram que havia uma relação inversa significativa entre o
consumo de café e o risco de câncer hepático.
Como isso ocorre?
Vários componentes do café têm sido relacionados com esse efeito positivo,
entre os quais a cafeína, os óleos do café caveol e cafestol e as substâncias
antioxidantes, mas não há comprovação definitiva.
No entanto, a maioria dos cientistas concorda em que provavelmente são os
antioxidantes presentes no café, em conjunção com a cafeína, que resultam nesse
efeito positivo. Já se sabe que a cafeína ajuda a proteger contra a cirrose
hepática e, considerando o peso da evidência proporcionada pelos estudos
populacionais, o café parece produzir um efeito real na redução do risco de câncer
hepático.
Outros tipos de câncer
O relatório da IARC também apresentou dados produzidos por cinco estudos sobre
o café e o câncer gástrico (2). Nenhum deles comprovava uma correlação, e
estudos ulteriores confirmam que é improvável que o café tenha qualquer efeito
significativo na etiologia do câncer gástrico.
Seis estudos apresentando dados sobre cânceres da boca, garganta e esôfago
foram analisados no relatório da IARC. Nenhum deles continha evidência de uma
associação com o consumo de café. (11, 23-26).
Com referência ao câncer da mama, o relatório da IARC também não constatou
nenhuma associação com o consumo de café (2). Isso foi confirmado mais recentemente
por diversos estudos, entre os quais um estudo italiano envolvendo perto de
6.000 casos (27).
Da mesma forma, nenhuma relação consistente foi observada entre o café e os
cânceres do ovário, da laringe, dos pulmões, da próstata, cervical, endometrial e
da tireóide, nem com os linfomas de Hodgkin e outros, os sarcomas e os
melanomas cutâneos (28,29).
Conclusões
O grande volume de dados existentes sobre o câncer da bexiga permite excluir
uma associação pronunciada com o consumo de café. Da mesma forma, outros estudos
científicos também sugerem fortemente que não há uma associação entre o café e o
risco de câncer pancreático.
No caso do câncer intestinal (colo retal), a maioria dos estudos revela uma
relação inversa, isto é, um efeito positivo resultante do consumo de café, ao
passo que os dados divulgados nos estudos populacionais indicam consistentemente
um efeito positivo com respeito ao câncer hepático e, provavelmente, ao câncer
oral e do esôfago.
Num importante estudo anterior, envolvendo a participação de mais de 15.000
homens e mulheres (30), os autores concluem: “As constatações mais importantes aqui relatadas são de que não há uma
associação positiva entre tomar café e qualquer causa relevante de óbito, e de que o
café não aumenta de forma significativa a incidência de nenhum tipo de câncer
comum”.
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