Café - que prazer!
A história da associação entre o café e o prazer do convívio social remonta ao
século XIV, quando, na Arábia, os apreciadores de café freqüentavam casas de
café especialmente para saboreá-lo. As primeiras casas de café surgiram em Meca,
com o nome de 'kaveh kanes'. Sua expansão por todo o mundo árabe foi rápida, e
elas se tornaram locais de sucesso, onde se jogava xadrez e gamão, se
conversava despreocupadamente e se apreciava o canto, a dança e a música. Nada houvera
antes como uma casa de café: um lugar onde se podia conviver e fazer negócios
num ambiente confortável, acessível a qualquer pessoa pelo preço de um café.
Depois que grãos do produto chegaram à Europa (Veneza) em meados do século
XVII, as casas de café se expandiram com rapidez tanto pela Europa continental como
nas ilhas britânicas.
Como na Arábia no século XIV, e em Londres em particular, elas em pouco tempo
se tornaram pontos de encontro habitual entre corretores de seguros (Lloyd's),
políticos, filósofos e livreiros. A inauguração do primeiro estabelecimento
norte-americano, em Boston, seguiu-se em 1689.
As razões por que o número de casas de café cresceu tão depressa depois da
introdução do café são compreensíveis, em particular ao considerarmos o efeito
agradável que o café exerce sobre a interação social, a conversação e o debate.
Mas que tipo de prazer?
Durante muitos anos os behavioristas (1) acreditaram na irrelevância do
conceito de prazer, mas, à medida que mais fatores biológicos como o de um receptor de
prazer iam sendo descobertos (2), os psicólogos passaram a buscar explicações
para o prazer na idéia de recompensa (3). Por si só, contudo, os princípios do
behaviorismo não parecem se coadunar com o uso social do café observado nas
casas de café e bares nos últimos 450 anos ou mais. A administração de cafeína
certamente não influencia o sistema de recompensas humanas, mas, para conseguir
verdadeiro estímulo e prazer psicológico, precisa-se de uma xícara de café. Só
um hedonista excêntrico encontraria prazer numa xícara de sulfato de cafeína e
água quente! (4)
A existência de tipos diversos de cafés provenientes da América do Sul, África,
Índia, Oriente Médio e América Central, bem como dos rituais de torrar, moer e
servir, põe em relevo a contribuição de nossos sentidos na criação da percepção
do prazer do café. Tudo que vemos, apreendemos pelo olfato e degustamos
contribui para fazer da satisfação de tomar café uma experiência cujo efeito total
freqüentemente ultrapassa a soma das partes componentes. Acrescentando a esses
juízos sensoriais o prazer que a bebida nos trazia no passado – e, portanto,
nossas expectativas –, não fica difícil entender a constatação de que uma solução
análoga de cafeína pode gerar uma vasta gama de reações entre nossos amigos e
colegas!
Prazer versus estresse?
O prazer, um dos principais antídotos do tédio, ajuda a reduzir o estresse e a
ansiedade, que constituem uma faceta inevitável das atividades quotidianas (5).
Acredita-se hoje que o prazer tem um papel significativo na criação de um
sistema imunológico saudável (6). O estresse eleva os níveis de um hormônio – o
cortisol – no sangue, fazendo com que as pessoas se sintam aflitas e incapazes de
combater as preocupações, ao passo que eventos satisfatórios e felizes reduzem a
concentração do cortisol no sangue (7). Há muito tempo que se sabe que o
consumo de cafeína pode concentrar a atenção em geral, reduzir o cansaço e a fadiga e
melhorar a memória e o reconhecimento (8). Tomar uma xícara de café, portanto,
ajuda a combater tanto a sonolência diurna como a lentidão de raciocínio
trazida por períodos prolongados de esforço mental e concentração, como ocorre nas
tarefas repetitivas.
Mais importante é ter-se demonstrado que a cafeína induz um efeito positivo (9)
– e é esta capacidade de melhorar o ânimo das pessoas que faz do café uma fonte
significativa de atividades prazerosas e felicidade pessoal. Há muito tempo que
se reconhece (10) que a apreciação e avaliação de nossa própria felicidade
reflete a qualidade geral de nossas vidas. Em síntese, quanto mais felizes somos,
mais achamos que nossa vida diária é satisfatória e desestressada.
O café promove a interação social
O café reanima, aumenta nossa concentração e pode inclusive beneficiar nosso
sistema imunológico, tornando assim maior nossa capacidade não só de enfrentar a
vida, como de vivê-la com gosto.
O café também pode ser visto como um dos produtos naturais que promovem o
bem-estar e a percepção da qualidade da vida, sem levar a efeitos adversos sobre o
comportamento, à perda de autocontrole e à embriaguez freqüentemente associados
com o uso de outros agentes da interação social, como, por exemplo, o álcool.
É fácil, portanto, entender a rápida expansão das casas de café por toda a
Europa e em outras partes do mundo depois da chegada do café a Veneza em 1625. Ele
não só nos dá maior sentido de prazer e alegria de viver, como também nos torna
mais prontos a fruir uma das atividades mais essencialmente humanas – a
interação social –, compartilhando experiências e os prazeres simples mas duradouros
de conversar e desfrutar a companhia uns dos outros.
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